Saudosismo

Saudosismo Vira e mexe, leio as crônicas do Luís Fernando Veríssimo. Gosto da sua prosa, que me encantou de vez quando ganhei o livro “Todas as histórias do analista de Bagé”, há muito, muito tempo. Enquanto lia os contos, morria de rir dos absurdos do famoso personagem, das tiradas e, claro, das expressões gaúchas. Veríssimo me ganhou aí.

Pois desta vez, encontrei o cronista Veríssimo saudosista das cartas. Sim, aquelas escritas com caneta em papel e que as gerações mais recentes, quiçá, nunca viram ou tocaram numa. Aposto que meus sobrinhos com menos de 20 anos nem sabem o que vem a ser “carta”.

Na escola, na minha época, carta era conteúdo da mais alta relevância em “Comunicação e Expressão”. Vamos nos lembrar de que no início dos anos 1980 ter telefone em casa era um luxo. Então, muita gente se comunicava apenas por cartas, especialmente numa Belo Horizonte composta por uma população oriunda do interior de Minas, com parentes morando na roça ou em cidadezinhas que tinham uma agência dos Correios funcionando.

Quando criança e adolescente, ajudava minha mãe com arrumações de fim de ano em casa. E, invariavelmente, topávamos com as cartas que meu pai trocava com meus tios, quando foi morar em Belo Horizonte, e os irmãos continuaram em Barbacena. Eram lindas essas cartas. Obviamente, não me lembro do conteúdo inteiro, mas tenho guardado o sentimento bonito expresso naquelas “mal traçadas linhas”.

Geralmente começavam com algo do tipo “espero que esta o encontre gozando de perfeita saúde” — verbo que só se usa hoje em dia em situações muito específicas. As despedidas expressavam, na maioria das vezes, o desejo do encontro pessoal com o destinatário da missiva.

Era preciso tirar um tempo do dia para se dedicar a escrever uma carta. Ou várias, a depender da rede de relacionamentos de cada um.

Os tempos eram outros, assim como o tempo. O mundo tinha outro ritmo. As prioridades de vida e de produtividade eram outras. Poucos tinham telefone e podiam se comunicar em tempo real. As cartas eram o principal meio de comunicação com quem estava longe.

E haja espera! A resposta podia demorar por diversos motivos, e, dependendo do assunto abordado, suscitava ansiedade, aumentava a saudade, trazia boas novas. Ou não.

Como tudo mudou rápido, não é? Em 30 anos, o mundo é completamente diferente.

Hoje em dia, posso me comunicar com alguém do outro lado do mundo, olhando para a pessoa, nos seus olhos, ouvindo sua voz. Só falta sentir o perfume, tocar nas mãos, dar um beijo ou um abraço.

Isso é maravilhoso! Mas, por outro lado, as relações interpessoais não ficam mais registradas. As últimas cartas escritas talvez sejam as trocadas pela minha geração. A efemeridade dos registros nas redes sociais e a comunicação eletrônica interpessoal sucumbem à primeira limitação de gigabytes dos dispositivos eletrônicos ou da nuvem. Ou ao próprio fim da vida útil do smartphone. Enfim, não temos mais esse tipo de “lembrança”, a relíquia do nosso passado, das nossas relações.

Como será o futuro sem um livro como “Cartas a um jovem poeta”, que Rainer Maria Rilke escreveu a um jovem que queria conselhos? Ou sem a “Lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade”, escritores da mais alta estirpe de nossa língua, que trocavam figurinha sobre literatura, artes, música, por meio das missivas? A correspondência entre esses dois era intensa. Aliás, dizem que Mário de Andrade era um missivista compulsivo.

Enfim, li Veríssimo e fiquei saudosista também. E de um tempo que eu nem vivi com intensidade, já que minha geração é justamente a primeira que teve facilidade de acesso a um telefone durante a adolescência e, pouco depois, fez a transição para a era da comunicação eletrônica.

Aliás, cartas suscitam isso: a saudade do que não vemos, nem vivemos, mas sentimos no fundo do coração.

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